CasaNem recebe Margarette May Macaulay para debate sobre preconceito e violência

Comissária Interamericana de Direitos Humanos visita ocupação LGBTI na zona sul do Rio

Por Maria Eduarda Campos, em 19/08/2019

Fotos: CasaNem

A Comissária de Direitos Humanos Margarette Macaulay (à dir.) chegando à Stonewall Inn/CasaNem.

A ocupação Stonewall Inn/CasaNem recebeu neste sábado (17) a visita de Margarette May Macaulay – relatora de direitos das mulheres e de direitos das pessoas afrodescendentes da Comissão Interamericana de Direitos Humanos – no edifício Almeida Rêgo, situado à Rua Dias da Rocha, 27, e que abriga LGBTIs expulsos de casa, em situação de rua, ou vulneráveis socialmente desde abril de 2018, para uma roda de conversa sobre sua nova fase de luta por se restabelecer, se reestruturar e ser bem recebida num bairro tradicionalmente conservador e elitista. Estiveram também presentes a Assessora Jurídica da Cooordenadoria Especial da Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio de Janeiro (CEDS-Rio) Lilia Sendin e os representantes do Instituto Internacional sobre Raça, Igualdade e Direitos Humanos Race & Equality Carlos Quesada e Isaac Porto.

A ocupação LGBTI, em Copacabana, ganhou repercussão internacional após os moradores do movimento social descobrirem obras de artes no sótão do prédio: entre elas, quadros, crânios, ossadas, animais empalhados e até mesmo uma múmia. O material foi retirado pelo Iphan  e pelo Museu Nacional, com apoio da Polícia Federal. O espaço é mantido por doações e liderado por Indianare Siqueira. Neste ano, a trajetória da transexual foi contada no  filme Indianara, dirigido por Marcelo Barbosa e Aude Chevalier-Beaumel – que representou o Brasil no festival de Cannes 2019, também na mostra ACID (L’Association du Cinéma Indépendant pour sa Diffusion) – e concorreu à Palma Queer, premiação destinada a filmes com temática LGBT+.

A chegada da comitiva foi uma injeção de ânimo e fortalecimento, tanto para os ocupantes da Casa quanto para Macaulay. “Termos Margarette como visita demonstra o quanto precisamos de apoio de fora, em nossa política atual. Foi revigorante recebermos uma mulher ativista, batalhadora e erudita que nos encantou com seus conselhos e seu amor”, vibra o estudante Dylan Alves Belo. Margarette destacou a importância de espaços de acolhimento como a CasaNem, e como é difícil o enfrentamento ao preconceito. “ O racismo é muito forte, assim como a discriminação e a violência; então, há muito trabalho a se fazer, e vir para esse lugar faz eu me sentir muito melhor. Muito obrigada!”, discursou para os ocupantes.

Isaac Porto, que trabalha especificamente com a pauta LGBTI no Race & Equality, se mostrou muito emocionado tanto com a visita na Stonewall Inn/CasaNem quanto na Favela da Maré, onde conheceram de perto a construção que o Grupo Conexão G de Cidadania LGBT em favelas faz transformando as vidas de travestis da Maré e de Palmares. “Escutamos histórias muito tristes; pessoas que foram expulsas de casa, que levaram tiros enquanto trabalhavam na rua, que foram ameaçadas de maneiras inacreditáveis, que haviam cursado faculdade mas tiveram que “optar” pela prostituição porque a transfobia as impediu de conseguir empregos formais e muitas e muitas coisas. Foi bastante duro, mas, sinceramente, era lindo olhar nos olhos das pessoas e enxergar nelas uma imensa gratidão às pessoas de Gilmara Cunha e Indianare Sophia, agradecidas pelas mudanças que os seus trabalhos causaram em suas vidas”. Isaac lembra que fortaleceu sua militância dentro da Igreja, onde absorveu com intensidade a importância de doar a vida pelo próximo. “Me impressiona como as ativistas trans estão dispostas a doar tudo de si e a enfrentar quem quer que seja pra garantir a vida das pessoas trans no país que mais mata essa população no mundo. O que testemunhamos na Maré e na ocupação da Casa Nem foi um forte e profundo compromisso com a vida”.

Margarette Macaulay é jamaicana; foi eleita em 16 de junho de 2015 pela Assembleia Geral da OEA por um período de quatro anos: assumiu em 1º de janeiro de 2016 e termina as atividades pertinentes a esse cargo em 31 de dezembro de 2019, é Bacharel em Direito pela Universidade de Londres e, atualmente, exerce a advogacia; ela atua como Mediadora no Tribunal Supremo da Jamaica e é Árbitra Associada, além de atuar como Notária Pública. Foi juíza da Corte Interamericana de Direitos Humanos de 2007 a 2012, contribuindo para a formulação das Regras de Procedimento da Corte. Seu foco na área de Direitos Humanos vinha sendo o campo dos direitos das crianças e das mulheres, se tornando referência em violência de gênero; também atuou pela abolição da pena de morte na região do Caribe, pela causa ambientalista, bem como em prol da proteção dos territórios indígenas.

Integrantes da CasaNem recebem Lilia Sendin (à esq.) e Margarette Macaulay (acima, no centro), ao lado de Indianare Siqueira e dos representantes do Race & Equality Isaac Porto e Carlos Quesada (de camisa rosa).


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