Obras de arte achadas em Copacabana

LGBTIs da CasaNem ocupam edifício abandonado na zona sul do Rio

Por Maria Eduarda Campos

Fotos: Maria Eduarda Campos e Gael Jardim

29 de julho de 2019

O espaço autossustentável Stonewall Inn/CasaNem, que oferece acolhimento para pessoas LGBTIs em situação de vulnerabilidade, ocupou o edifício Almeida Rêgo, na Rua Dias da Rocha, 27, situado em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro, que se encontrava, há anos, abandonado e sem qualquer função social, acumulando muita sujeira e animais peçonhentos, como ratos, morcegos e pombos. Os 25 núcleos familiares foram recebidos por outros ocupantes que já estavam estabelecidos no segundo e no terceiro andar desde abril de 2018, então organizaram um mutirão de limpeza do prédio, instalaram um botijão de gás, num primeiro momento, e agora, por questão de segurança – e também por entender essa energia como menos poluente e agressiva ao meio ambiente – já fazem uso de panelas e demais utensílios de cozinha elétricos.

“Queremos retomar a vida neste imóvel, tornando-o autossustentável, que venha a funcionar com energia elétrica limpa pelo uso de placas fotovoltaicas; além disso, faremos uso de água recuperada das chuvas, a coleta seletiva do lixo para reciclagem, e abrigaremos também, eventualmente, mulheres vítimas de violência doméstica”, afirma Indianare Siqueira, Presidente e Fundadora da ONG TransRevolução e idealizadora da CasaNem. “No andar térreo, pretendemos fundar um Café Restaurante com produções artesanais veganas; já no quinto e no sexto andar, retomaremos as Oficinas que já oferecíamos antes, como o ateliê de Corte e Costura – montado em parcerias, como Almir França e Andréa Brazil – e as aulas de Ioga, Audiovisual, Idiomas, entre outros”, anima-se.

O coletivo CasaNem estreou em 2016 como uma extensão do projeto itinerante PreparaNem, iniciado em 2015 para oferecer aulas preparatórias para a prova do Enem, permitindo que pessoas transvestigêneres ingressem em Universidades, e agora, também ajuda pessoas LGBTIs, em geral, a se reinserir no mercado formal de trabalho, tendo essas pessoas uma opção pra além da prostituição (que pra elas é quase compulsória); durante o mutirão de limpeza do Edifício Almeida Rêgo, os ocupantes se surpreenderam ao encontrar, trancadas no sótão do último andar, obras de arte: bustos como o de Santos Dumont, animais empalhados, pinturas a óleo e ossadas de valor histórico ainda desconhecido. Imediatamente, acionaram seus advogados que decidiram comunicar o ocorrido ao Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan) e à Polícia Federal para recolhimento, avaliação e retorno destas peças à sociedade.

              A chegada da CasaNem – projeto de moradia pra LGBTIs da ONG TransRevolução, que é filiada à Frente Internacionalista dos Sem-Teto (FIST) – dividiu os moradores do bairro; tão logo se iniciou a ocupação, os novos ocupantes se viram trancafiados no interior do prédio, sendo privados de seu direito de ir e vir devido a uma corrente com cadeado colocada por pessoas não identificadas que frequentam a região. Indianare lembra que foi necessário pedir ajuda a integrantes de Frentes LGBTIs, à sub-secretária de estado do Rio de Janeiro Márcia Florêncio, e ao superintendente estadual do Rio Sem Homofobia Ernane Alexandre, bem como à CEDS-Rio (Prefeitura do Rio de Janeiro) na pessoa de seu coordenador, Nélio Georgine, para que pudessem quebrar as correntes, restabelecer o livre acesso de todos, e montar, temporariamente, um grupo de vigília na entrada.

            Para o militar Bernardo Cataldi, morador do bairro, “Copacabana já está abandonada demais, e agora a vinda de pessoas que, teoricamente, eram da rua… Deveria ocorrer o contrário, limpar todo mundo da rua”; Cataldi pontuou que sente que quer o seu bairro de volta. O gerente de restaurante José Hermano compartilha da mesma opinião que Cataldi: “Eu não concordo com a ocupação porque eu acho que é particular a propriedade; mesmo sendo um bairro conservador, os LGBTs têm o seu direito também, mas não de invadir prédios que estão vazios, tem que arrumar outra solução”. Já a professora Maria Elisa Barreto considera fundamental que ocorra uma determinação judicial antes de quem quer que seja se valer de um prédio vazio, “dando sopa”, para ir morar naquele espaço.

Entretanto, há muitos moradores que apoiam a iniciativa da Casa Nem, como é o caso do neurocientista Leopoldo Kneit; para ele, se o proprietário não estava regularizado nem pagando o IPTU – e ainda abandonou o imóvel – ter um grupo fazendo um trabalho social é uma boa posição, independente de raça, credo ou da orientação sexual dessas pessoas: “Quando eu lhe julgo com meu dedo indicador, não estou vendo os outros três que julgam as minhas próprias questões”. A publicitária Marcella Justo concorda com Kneit: “Sobre a Ocupação, eu acho ótimo porque são pessoas que sofrem preconceito diariamente; ninguém vai mudar a opinião das pessoas conservadoras aqui do bairro, mas é importante que haja respeito. O que eu posso dizer é que deveriam ocupar mais lugares”, conclui. “Ter LGBTIs frequentando Copacabana vai trazer mais alegria, eu gosto muito dessa comunidade e apoio totalmente a causa, e acho que virão mais benefícios ao bairro porque é um prédio que estava desativado há anos. Que ocupem outros na mesma situação”, pontua Amanda Torres, estudante de fisioterapia.

A Casa Nem está usando, no edifício, energia elétrica funcional e uma cisterna, de onde retiram água para limpeza e uso dos banheiros; estão também com duas geladeiras, portanto, habilitados a receber doações de frutas e legumes, assim como precisam de alimentos não perecíveis, água potável, peças de roupa, roupas de cama, móveis para os ocupantes organizarem seus cantos, ou mesmo, podem ser feitas doações financeiras na conta do TransRevolução: CNPJ 27.720.290/0001-02,  no Banco do Brasil, agência 3114-3, conta corrente 18.970-7 .  “Estamos aceitando todo tipo de ajuda; as roupas doadas que sobrarem serão realocadas para um bazar de troca, recebemos, também, voluntários que topem colaborar na limpeza e organização, mas, enfim, todos são bem-vindes, mesmo que seja só pra virem dar abraço e afeto”, declara Indianare.

Atualmente, há uma ação judicial proposta pela ocupação, assessorada pelos advogades da FIST, por quem é respaldada juridicamente, e que assessora também ocupações por direito a moradia popular e digna, garantindo que se cumpra, no Brasil, o que determina a constituição brasileira: que uma propriedade pública ou privada precisa cumprir uma função social, e não ser abandonada e deteriorada, tornando-se foco de doenças e trazendo riscos à população. A  ocupação Stonewall Inn/CasaNem atualmente  se encontra sob jurisdição da 48° Vara Cível do Rio de Janeiro. Os contatos da CasaNem para doações e ações voluntárias são: [email protected]; whats’app (+55) 21 96829-0296; messenger: m.me/casanemcasaviva; instagram: @soulnem2019.


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