Entrevista com Indianara Siqueira por Julia Naidin

Entrevista com Indianara Siqueira por Julia Naidin

Julia Naidin é doutora em Filosofia Laboratório de Filosofia Contemporânea da UFRJ, faz parte da equipe que concebeu e coordena a Casa Duna, e foi professora de Filosofia no PreparaNem.

Indianara Siqueira é puta, travesti, vegana e militante pelos direitos das mulheres, das prostitutas e dxs LGBTQIs há mais de vinte anos. Presidente do Transrevolução (2012), funda, em 2015, o PreparaNem, um coletivo trans-ativista preparatório para o ENEM e movimento social fundado, composto e voltado principalmente para pessoas travestis e transexuais, no centro do Rio de Janeiro. Já em 2015, alunes transexuais entraram nas principais universidades da cidade efetuando uma ocupação necessária no confronto a uma estrutura patriarcal que lhes impedia acesso ao ensino superior. Em 2016 o PreparaNem se estende para Niterói e para a Maré, um dos maiores complexos urbanos da cidade do Rio de Janeiro.

Julia Naidin: Indianara, em primeiro lugar, muito obrigada pelo seu tempo. Por favor, começa se apresentando e contanto um pouco da sua história e do seu percurso no ativismo e na militância…

Indianara Siqueira: Eu sou Indianara Siqueira, e si não queira também. Minha vida enquanto ativista e militante começa oficialmente quando eu entro pra luta pela prevenção ao HIV-AIDS nos anos 90, eu venho pro Rio de Janeiro para participar do Encontro Nacional de Travestis e Transexuais.

JN: Você nasceu aonde?

 IS: Nasci em Paranaguá no Paraná, sou do porto de Paranaguá. Morei em Santos, aonde morei na rua e depois fui pra prostituição. Como esta era a época do auge da epidemia de HIV-AIDS, tinha-se essa coisa de que eram as prostitutas e as travestis, gays que morriam de AIDS, que se contaminava por HIV, então tinha toda essa preocupação do Ministério da Saúde de fazer um trabalho com essa população dita população de risco, que hoje é chamada de população vulnerável. Da luta pela prevenção e pelo tratamento das pessoas com HIV-AIDS eu venho pro Rio, em Santos – que era a capital mundial da AIDS na época, e aí eu entro pra luta organizada dos movimentos sociais. Isso é a luta organizada, porque sabemos que enquanto travestis e transexuais nós já somos militantes com nossos corpos. Então eu participo do Encontro Nacional de Travestis e Transexuais no Rio de Janeiro em 1995, poso nua para uma revista, fundo o Grupo Filadélfia de travestis e liberados em Santos, e em 1996, na Conferência Mundial de Saúde, a gente exige o respeito ao nome social em prontuário médico em Santos, a gente consegue a aprovação na Conferência Mundial de Saúde, que travestis e transexuais também sejam internadas em ala feminina e que os parceiros de pessoas LGBTs sejam considerados cônjuges de fato. Estes eram três pontos polêmicos e foram aprovados. Essa foi a primeira vez que o nome social foi pautado no Brasil, isso foi em 1996. A partir daí houveram muitas retaliações. Do dia pra noite parecia que eu tinha convocado uma conferência de imprensa na minha porta, porque estavam todos os repórteres de emissoras querendo uma reportagem. Assim eu deixei de ser uma pessoa anônima e passei a ser uma pessoa pública, então óbvio que isso também tem um preço, as pessoas te xingarem na rua e tudo… eu não estava preparada pra essas situações. Assim eu saio de Santos e fico um tempo entre São Paulo e Rio de Janeiro e vou me fortalecendo dentro do movimento. Em 1996 eu venho para o “Encontro” novamente, que foi Geovanna Baby, a matriarca do movimento trans no Brasil que fundou em 1993. No final dos encontros a gente decidia a próxima cidade para o evento do ano seguinte, eu propus que fosse realizado pelo grupo Filadélfia em São Paulo, em parceria com a casa de apoio Brenda Lee, que era uma travesti que tinha sido assassinada e que tinha uma casa aonde ela recebia as pessoas com HIV-AIDS, e que a grande maioria eram pessoas travestis, transexuais e gays e essa foi a primeira casa de apoio a pessoas vivendo com HIV-AIDS de São Paulo, se não me engano do Brasil. Assim a gente leva o V Encontro Nacional de Travestis e Transexuais pra São Paulo nessa parceria, com 280 participantes, pessoas do exterior, Camila Cabral que é a presidente do PAST de Paris (Prévention Action Santé et Travail por les Transgenre), uma brasileira com cidadania francesa, médica, que se especializa nisso, funda essa associação e que também vem em 1997 pra participar do “Encontro”. Assim a luta vai, vai… e com o tempo as pessoas com HIV-AIDS passam a ter medicamentos, com acesso gratuito. O Brasil é o primeiro país que libera para todxs o coquetel de HIV-AIDS, o que faz com que os avanços no tratamento levem as pessoas a viverem mais tempo e a serem protagonistas de suas histórias no movimento, o que eu acho justíssimo e corretíssimo. Então o que antes era um encontro de pessoas vivendo e convivendo com HIV-AIDS, que eram os parentes e familiares que acabavam ficando e levando adiante a luta contra o HIV, por prevenção e mais saúde, acabaram se retirando. Eu tive uma irmã, cis, hétera, que morreu de HIV-AIDS, e um cunhado. Óbvio que as pessoas esperavam que eu que morresse de HIV-AIDS. Mas fato é que como as pessoas passam a ter uma sobrevida maior e a lutarem pela causa, e assim nós, convivendo, nos afastamos e recuamos. Então as pessoas vão pra outros movimentos, e eu fiquei só no movimento LGBT e no movimento das prostitutas, e fui organizando outras coisas.

JN: O “Transrevolução” surgiu quando?

IS: O Transrevolução foi idealizado por Gisele Meirelles “Madame Gisele”, em 2009, em um chá que era organizado para as travestis no Pela Vida, que Charle Aluvi e Hanna Suzarte faziam, com a morte delas, Gisele pega essa reunião, idealiza o Transrevolução e me chama pra trabalhar com ela, eu vou e a gente acaba se tornando muito parceiras. Éramos uma dupla que trabalhava muito bem juntas, ela com a parte educada e técnica da questão e eu era a parte que estava nas ruas, fazendo o trabalho de rua. Depois da morte dela eu me torno presidente do Transrevolução, que não era uma instituição, éramos ainda só um coletivo. Agora o Transrevolução é uma ONG.

JN: A “Marcha das Vadias” começa quando aqui no Rio?

 IS: Em 2011. Em 2009 eu volto pro Brasil. Deportada. Fui preza na França, fiz dois anos e meio de prisão porque eu tinha apartamentos e eu alugava para pessoas, a maioria das travestis e transexuais brasileiras que se prostituíam. Aí fui preza, fui condenada e em 2009 fui deportada em condicional pro Brasil. Chego aqui e já começo outra vez nos movimentos sociais, a denunciar toda a exploração e agressão contra travestis e transexuais, fui denunciar no Arco-íris, acabei me tornando coordenadora de um grupo para travestis e transexuais, voltei para os movimentos sociais. Em 2011 teve o fato no Canadá, de um policial que fala a frase “se as mulheres não quiserem ser estupradas elas não deviam se vestir como vadias”, o que dá origem a Marcha das Vadias pelo mundo todo, e em 2011 no Brasil o pessoal se reúne pra criar a Marcha no Rio de Janeiro e em São Paulo e eu me torno uma das organizadoras, lembrando que se trata de um coletivo.

JN: Essa história da tua prisão na França, ela se deu por conta destes apartamentos que você alugava? Ou pela questão de uma rede que você desestabiliza?

 IS: Sim… Na verdade é uma rede que se desestabilizou não só lá, né…. No Brasil mesmo por conta de denúncias contra proxenetas mesmo, que exploram, que batem, que extorquem dinheiro das pessoas que se prostituem e que não deixam as pessoas terem liberdades com seus corpos, claro que essas pessoas se voltam contra você e querem se ver livres de você. Na França justamente com a questão dos apartamentos foi isso, as pessoas me pagavam uma diária, elas pararam de ter que dar metade do que recebiam pra outras pessoas, então é obvio que essas pessoas perdem lucro. Mas também quando você organiza algo grande, sempre as pessoas que estão nessas redes que você abala acabam brigando também, então acaba tendo violência e essa violência acaba justamente tendo efeitos negativos sobre o que temos como negócio. Isso é complicado, mas o movimento era para que as pessoas tivessem espaços seguros de exploração para que elas pudessem se prostituir.

 JN: E a tua vivência no presídio lá?

IS: Para mim, eu estava em segurança. Minhas amigas mesmo que iam me visitar, a própria Sabrina da associação PAST falava que haviam pessoas que estavam tramando para me matar lá fora. E de certa maneira foi um período na minha vida no qual eu tive tempo só pra mim, eu sempre fui de movimento social, sempre fui da rua da luta, de estar em marchas, envolvida nas organizações de movimentos e de eventos, não tinha tempo pra mim. Ao menos na prisão eu tinha tempo pra mim. Eu tive dois anos e meio só pra mim, pude ler muito, ler livros que eu sempre quis e que não tinha tempo, pra mim foi benéfico, apesar de toda a briga também que eu tive que fazer na prisão, pois estava numa prisão masculina e não podia usar roupa feminina, teve que ter toda uma briga para que eu pudesse usar as roupas femininas, teve toda uma briga depois, com denúncia ao Procurador da República da França por tortura psicológica, por me chamarem de senhor, senhor, senhor…. Pra passarem a chamar-me então só pelo sobrenome. O pedido da lista de compras de farmácia, que passamos a ter uma lista de farmácia transgender, já que a dos homens não nos incluía, os produtos que nós queríamos não estavam ali, não podiam trazer a lista de compras da farmácia das mulheres, então criaram uma lista para transgender a partir desta denúncia. Entraram em contato com o PAST, fizeram reuniões para saber o que colocar nesta lista.

JN: Voltando pra tua história no Rio, como surge o PreparaNem?

 IS: O PreparaNem é uma ideia que eu sempre pensei, desde que eu fundei o Filadélfia em Santos, ainda não tinha ENEM, nada dessas coisas, mas não haviam cursos. Eu tinha a ideia de fazer cursos, algum tipo de preparatório, de formação, de alfabetização, já que a maioria das travestis e transexuais não eram alfabetizadas naquela época, mas nunca contei com as parcerias certas pra isso, as pessoas queriam sempre institucionalizar, colocar nos editais, a ideia capitalista, cisgenera, branca, né?

Isso nunca me agradou muito, então acabava não indo pra frente… Depois com a Internet chegando, as tecnologias, eu passei a pensar em um preparatório com outras coisas também, como Internet, pra que as pessoas aprendessem a usar. Ao longo desse tempo todo eu vim me tornando mais uma figura pública, as redes sociais, as pessoas me seguem, curtem as coisas, e começaram a falar que as travestis me seguiam muito, que se inspiravam em mim, e que seria legal se você se inscrevesse no ENEM para tirar seu certificado de Ensino Médio, que então elas se inspirariam e acabariam se inscrevendo, aí poderíamos fazer um mutirão pra elas se inscreverem… Aí eu disse, não; se é pra elas se inscreverem, vamos fazer um preparatório pra essas pessoas poderem fazer essa prova bem e disputar esses espaços. Assim, com um amigo, criamos um espaço para essas pessoas poderem estudar. Como ‘Nem’ é uma gíria das periferias do Rio de Janeiro, o exame do ensino médio é ENEM, e estávamos criando um preparatório, fundamos um coletivo com o nome de PreparaNem. E aí eu fui passando tudo que eu pensava sobre este preparatório: um coletivo, com professores voluntários, que se preocupassem não só em ensinar um conteúdo específico, mas também em compreender aquela realidade daquelas pessoas, se elas estavam comendo, se elas estavam doentes, onde elas estavam morando… tudo isso passou a ser pensado. Então o PreparaNem passou a dar alimentação. Hoje inclusive ele dá casa porque tem a CasaNem, roupas… Essas pessoas passaram a vir. Vieram pra um espaço em que, óbvio, houve todo um trabalho com os professores, para explicar para quem que eles estavam dando aula, que eles não impusessem outra vez essa educação que a gente já tem aí tão classista, racista, branca, de pessoas cis-hetero, que acabam aprendendo e que ao invés de se libertarem dessa maneira de ser, reproduzem. As pessoas que vão fazer pedagogia para serem professores, pensam em ser revolucionárias mas acabam se aprisionando a um currículo, às grades curriculares, e acabam não se libertando e não renovando o próprio modo de trabalho e de pensamento, o que é muito complicado. Então acabou sendo um ensinamento de mão dupla: tanto es alunes aprendiam, quanto es professores aprendiam muito com essa experiência de outra forma de ensinar e de se relacionar com es alunes trans.

Aprenderam a se acostumar a ver as pessoas transvestigeneres, que é a palavra que a gente usa, com peito de fora, se tivesse muito calor, de shortinho, de topzinho, tudo totalmente diferente dos padrões de uma sala de aula… E assim acabou se criando a rede do PreparaNem. Já no primeiro ano foram 12 pessoas inseridas no mercado formal de trabalho, faculdade… Se estendeu para outras cidades, inspirou outros movimentos similares. Aqui no Rio nós temos o PreparaNem Niterói, da Maré, que parou agora, o da Zona Oeste que está pra sair, junto com a CasaNem de Mesquita, que também a CasaNem já se multiplicou. Então é isso, o PreparaNem é esse curso preparatório mas que além de preparar as pessoas com aulas também prepara as pessoas pra vida, como diz Luciana Vasconcellos, o PreparaNem me preparou pra vida, não somente pra uma universidade, uma formação ou um certificado.

JN: Eu queria que você falasse um pouco mais dessa mudança pedagógica que você sempre pautou muito para os professores que chegam aqui reproduzindo um modelo no qual eles foram educados, em uma escola que não está preparada para lidar com questões de gênero, por exemplo, com a questão social, com aluno que não comeu, que não tem aonde dormir, com alunes que tem uma questão de gênero que ainda estão em transição e que não sabem como se referir a essa pessoa, e todas as mudanças de perspectiva e de comportamento que aconteceram com os professores do Prepara e que foram muito puxadas por você e pela sua chamada de atenção pra essas questões.

 IS: Sim, justamente, o PreparaNem existe por esta necessidade. Se não fosse a maneira de ensinar tradicional talvez não fosse necessário o PreparaNem. Ele surge da necessidade de um espaço seguro para que LGBTs mas, principalmente, para que travestis e transexuais não sofram opressões, não sofram descaracterizações do seu corpo, do seu gênero, das suas vivências, para poderem acessar o espaço de uma sala de aula e a educação, pois é isso que as pessoas LGBTs sofrem nas escolas, causando uma enorme evasão escolar desta população devido à essa violência. Nasce do formato de uma escola em que os professores não se preocupam em saber em que condições aquele aluno chega, como aquelas pessoas estão. Qual é a situação delas nas famílias, onde moram, como vivem? Temos que nos preocupar com isso também. O respeito pelas identidades, perguntar às pessoas primeiro, não você, com o que te foi imposto na sociedade cis-hétero-normativa, você pode achar que está diante de um homem, pode achar que está diante de uma mulher, não, primeiro perguntar, isso é um respeito pelas pessoas que eu acho fundamental. Mas acima de tudo deixar de pensar da maneira de que existe o professor aqui, o aluno ali, você dá sua aula, faz o seu trabalho e acabou, você só volta pra dar sua outra aula, sem se preocupar, sem ter uma interação. No PreparaNem não; es alunes e professores depois saem pra beber, vão a festas juntos, acabam criando e se tornando realmente amigos, porque é isso, né? Além de professores e alunes, amigos. As pessoas têm que conviver na sociedade, vão ter que conviver em vários outros espaços. Então se rompe essa barreira do professor lá em cima e o aluno lá em baixo. Os professores aprenderam a se preocupar com essas pessoas, chamarem essas pessoas pras suas casas, pras suas festas, organizarem eventos juntos, viram os privilégios que tem e quiseram compartilhar também, aprenderam a compartilhar. E acho que é isso também que os professores esperam, quando a gente cria essa separação de que o professor tem que se colocar no seu lugar, isso já é muito ruim. O professor só tem que se colocar no seu lugar se esse lugar for junto com es alunes, aprendendo com alunes, se preocupando com a vida dessas pessoas. A escola deveria ser isso, uma escola em tempo integral, mas não no formato que se tem por aí, eu falo em tempo integral porque a educação e a convivência deve ser integralmente, estar junto integralmente, que é um aprendizado pra tudo.

JN: Tem uma coisa muito importante que você fala, que é o Prepara também como uma formação política… Pras pessoas LGBTs e para os professores.

IS: Sim, o PreparaNem é uma formação social, ele acostuma as pessoas que chegam aqui a conviverem em família, a fomentarem debates. Eu me lembro que os professores falavam muito assim: “a gente chega com uma aula toda preparada e começam a falar de um assunto e aí muda completamente”, eu falo “transforma isso em aula!”, porque é justamente isso: as práticas já foram muito esvaziadas e fixadas somente como teorias nos livros, vamos pegar outra vez essas práticas, fazer com que essas práticas sejam outra vez aulas. Acostumar essas pessoas a transitarem em lugares de onde elas são expulsas e proibidas de transitarem, acostumar esses lugares a fomentar o debate nestes espaços, em sindicatos, em universidades, e em vários espaços aonde acontecia o PreparaNem, você fomenta o debate quando você ocupa os espaços, você levanta questões: Porque eu nunca convivi com essas pessoas? Porque eu nunca convivi com travestis e com transexuais? Onde estavam essas pessoas? O PreparaNem também forma isso, uma discussão toda política fora da sala de aula e dentro, ensinando essas pessoas que elas podem sim ocupar os espaços que lhes foram negados pelo sistema cis-hetero. Formando essas pessoas elas aprendem a discutirem com sindicalistas, com secretários, a irem a eventos políticos, entender o ensino também para além da sala de aula é isso, é ultrapassar essas barreiras, a educação tem que ser com a sociedade em movimento, como ela está a todo momento. Isto tem que ser reensinado aos professores, como fazer isso? E eu acho que o PreparaNem faz muito bem isso, ele cumpre bem esse papel de ser uma formação política, além de uma formação somente pedagógica, uma formação pra vida mesmo.

 JN: Como surge a CasaNem?

IS: A Casa surge em primeiro lugar dessa necessidade de um espaço. Eu sempre aluguei vagas, inclusive já fui presa por isso, e no Brasil também, sempre aluguei, principalmente para travestis que se prostituíam, ou também pra mulheres cis que se prostituíam, aí sempre tinha as pessoas que não podiam pagar e aí vai ficando, eu também nunca fui essa pessoa que “ah não pode pagar, então vai pra fora”, a gente só punha pra fora realmente quando eram problemas graves, mas em geral não punha. Então, eu sempre ficava acolhendo, mas queria realmente ter um espaço, um abrigo LGBT pra quando as pessoas fossem expulsas de casa e tudo mais. Então a casa estava sendo vista para outro lugar, já tinha visto o imóvel e tudo, mas aí tinha essa casa, que era de um coletivo do qual eu fazia parte, que se dizia inclusivo e que não era tão inclusivo assim, e que eu estava saindo desse coletivo por questões referentes a isso. Mas aí ocorre um ato de transfobia, uma violência física contra umas das pessoas do PreparaNem, que confiavam na casa porque eu tinha trazido o Prepara pra lá – o que eu senti como uma traição. Nós tentamos conversar pra resolver e houve uma deslegitimação e silenciamento constante, o que levou a uma outra briga e foi quando eu decidi tomar o espaço. E, a casa se torna pra mim, hoje, uma reintegração de posse, de um espaço que sempre foi ocupado por travestis e transexuais, como diz uma amiga minha, a Rogéria Peixinho, ela fala que a CasaNem é um quilombo, se haviam antes os quilombos, onde os negros antes se refugiavam, e pra onde eles fugiam, mesmo os livres acabavam indo para esses espaços de acolhida, a CasaNem é esse quilombo LGBT porque es LGBTs que são expulsos no Rio hoje tem pra onde ir, as travestis e transexuais que estavam morando na rua hoje tem pra onde ir, muitas que vinham pro PreparaNem só para a alimentação e para estarem juntas, acabaram encontrando aqui também um lugar aonde morar. Então nós temos aqui esse abrigo LGBT, com 65 pessoas que já passaram por aqui, que na época dos grandes eventos precisavam ser abrigadas, tiveram dias de pico que eram 160 pessoas, também com alimentação dada a moradores de rua, e que tivemos que parar porque não deu pra continuar esse trabalho mas pretendemos voltar. Temos atualmente 23 moradoras e temos pessoas que são assistidas pela casa, vem, tomam banho, se alimentam, se adiantam em questões de documentação, mas não vivem na casa. Temos as festas pra auto sustentabilidade, os debates que são feitos aqui, e os movimentos sociais que afluem para esse espaço. Então a casa hoje é uma resistência dentro do Rio de Janeiro. Acho que no Brasil é a casa mais livre, ela é totalmente livre de regras, as regras vão surgindo e vão acontecendo conforme as necessidades das vidas das pessoas da casa, de colocar determinados limites a determinados fatores, mas a casa realmente não tem regras impostas, as coisas vão acontecendo e vão surgindo.

JN: Fala um pouco do “meu peito, minha bandeira, meu direito”…

 IS: Então, em 2011, nas reuniões para a Marcha das Vadias tinha a discussão de que as mulheres poderiam ser punidas se estivessem com os seios de fora, se elas seriam criminalizadas ou não, então eu disse que eu iria com os peitos de fora puxando a marcha porque a polícia não poderia me prender pois legalmente eu sou homem, eles sempre disseram que eu sou homem homem homem, mesmo eu dizendo que não, então que eu iria usar isso contra eles; já que legalmente eu sou homem, eu posso legalmente estar com os peitos de fora, como os homens fazem no Brasil. Assim, nessa situação, eu fui puxando a marcha e passo a ser perseguida novamente, já era perseguida e isso aumenta muito. E aí tudo aumenta… Em determinados bares em Copacabana, aonde as travestis eram proibidas de entrar e tinham homens sem camisa eu tentei entrar sem camisa e isso resultou em uma detenção minha, eu fui presa, meus advogados vieram e ai começou toda a discussão de que eu não podia ser presa nem detida pois legalmente eu era homem, e fui a julgamento. E aí eu disse justamente isso: se me condenassem, estariam reconhecendo que meus documentos não eram válidos, porque mesmo registrada como homem, e sem mudar os documentos, eu não era reconhecida como homem legalmente. Então eles estariam reconhecendo que eu era mulher e abrindo uma jurisprudência para que travestis e transexuais fossem respeitadas pelas suas vivências, pelas suas auto-declarações sobre seus corpos, e não pelos documentos que foram registradas ao nascer, então abriria essa jurisprudência. Mas, ao mesmo tempo, estariam me condenando como mulher, uma vez que se eu fosse homem não seria condenada por ultraje público, então eles estariam também deixando explícito que homens e mulheres não são iguais perante as leis no Brasil, que as mulheres têm menos direito que os homens. E se eles resolvessem me liberar e me absolver, eles estariam me absolvendo como homem, então me absolvendo ou me condenando eles estariam, por conseguinte, condenando as mulheres, reconhecendo o óbvio, que as mulheres no Brasil não têm os mesmos direitos que os homens, não têm direito ao seu corpo. Aí então eles dizem que é muito difícil julgar, arquivam o processo, e aí eu resolvo mexer mais, ir além. Não é só em um protesto que eu vá e chamo as pessoas pra ir protestar, é eu estar caminhando na rua normalmente e eu faço de novo, eu tiro a blusa, aí a polícia vem e me prende, e ai eu faço de novo o jogo: não, vocês não podem me prender, legalmente eu sou homem, se vocês me prenderem porque eu estou com o peito de fora vocês vão ter que prender todos os homens ao redor que estão sem camisa, aí eu sou detida e aí acaba que eu me torno uma pessoa não julgável, porque eles não sabem então o que fazer comigo. Não decidem se como homem eu sou liberada, ou se como mulher eu sou condenada, então eles arquivam e não levam nada adiante. Então nasce o “meu peito, minha bandeira, meu direito”, porque era o meu peito que incomodava. Em uma das detenções o policial fala: “estava fazendo a ronda em tal lugar e vi o nacional vindo na minha direção portando peitos”, parecia que eu estava portando duas metralhadoras (risos). Em outra o policial fala, quando eu pergunto porque eu não posso sair da delegacia se não vai dar em nada? Ele diz “a gente não pode te liberar com o peito de fora”, mas se eu fosse um rapaz que é detido somente de bermuda e sem camisa, ele ficaria esperando até que a família fosse levar uma blusa pra delegacia? E o policial responde “mas você tem o fenótipo feminino”, então passo a ser o fenótipo feminino, não mais a pessoa… eles acabam não tendo mais como me julgar, como me condenar, a ponto de eu já chegar nas delegacias e já era recusada. Em algumas delegacias quando os policiais estavam me levando, os delegados e as delegadas que estavam de plantão já falavam: na minha delegacia não, pode levar embora que aqui não quero não, que não vai dar em nada. Numa das delegacias uma vez a delegada fez o policial me levar de volta pra onde eu estava com meus amigos no bar bebendo… (risos). Em alguns espaços eu chego, sento em bares pra beber com os peitos de fora, então os policiais chegam, olham, vão embora, não falam mais nada, não fazem mais nada. Em Santa Tereza uma vez aconteceu de um cara vir me dar um soco, aí meus amigos chamaram a polícia, começou aquela confusão, aí a polícia veio e quando os policiais chegam eles descem do carro e falam ‘Indianara!’ e vão lá e explicam pro cara toda a situação, do protesto que eu faço com o peito… Os policiais já explicam pras pessoas. Aí os policiais vão embora e o cara fala: “ah, só porque os volta a legalidade pra democracia, e ela que tem legitimidade pra chamar novas eleições e ela não cometeu nenhum crime e isso já ficou provado. Além de tudo é um golpe misógino e machista. Mas a situação tá muito difícil, tanto política quanto econômica. Por mais que eles digam que está melhorando, não está. O ínfimo que está de melhora, os 3% que eles dizem, já haveria de qualquer maneira, pois isso são resquícios de uma crise que foi uma crise mundial. Não foi uma crise no Brasil por conta do PT estar no poder, foi uma crise financeira mundial, que alguns países sobreviveram, e que no Brasil usaram isso para tirar a presidente eleita do poder.

JN: E o cenário das lutas, como você vê?

 IN: Estou um pouco decepcionada, na verdade, com os movimentos sociais. Estou vendo menos do que eu gostaria de ver, lutas nas ruas. Acho que poderia ser bem mais potente, ocupações acontecendo, ocupações de praças. Acho que a gente não tá sabendo fazer. Eu ao menos estou sabendo fazer, tento ao menos, fazer. Mas eu estou bem decepcionada. As pessoas estão sendo cooptadas. Alguns sindicatos, movimentos estão bem cooptados e não estão fechando com a população. Quem está perdendo é, em sua maioria, a população pobre, preta, das favelas e das periferias, alguns sindicatos não estão junto. Acho que estamos perdendo, acho que as lutas têm que se intensificar, elas têm que se tornar cada vez mais, cada vez maior, acho que nós temos que invadir certos espaços que sejam públicos desse país, mas públicos na medida em que entram na casa das pessoas, sem pedir autorização delas. Ir nos estúdios de televisão e invadir na hora de programas ao vivo com programação direita, invadir esses programas que entram na casa das pessoas pra chamar o povo. Eu tô pensando em ações assim agora. Minhas próximas ações serão assim, invadir um Domingão do Faustão levar uma galera pra ficar na plateia e aí essa galera vai com roupas escondidas, cartazes escondidos e na hora que tá ao vivo todo mundo corre pro palco, invade aquilo e começa um protesto em frente as câmeras, acho que vamos ter que fazer coisas assim, uma guerrilha de mais ataque, tacar mais fogo, quebrar mais símbolos e ocupar mais ruas. As lutas têm que se intensificar senão vamos tomar golpe atrás de golpe. Estão correndo para condenar o Lula em segunda instância a todo custo, independente de provas ou não, porque não querem que ele participe de uma eleição democrática. Isto porque eles sabem que ele tá aí e que ele leva as eleições, se houverem novas eleições.

JN: Última coisa que eu queria pedir pra você comentar: vi você falando esses dias numa entrevista, que a questão não era sobre ponto de vista mas sim sobre ponto de vida. Achei isso muito belo e verdadeiro, essa ideia de que é uma vida que está atrás de uma posição, e não só uma questão de opinião. É uma vida que faz com que uma pessoa veja de tal ou tal forma alguma questão, e que faz com que seja possível compreender as situações…

 IS: É ponto de vida porque às vezes o teu ponto de vista está matando pessoas. O teu ponto de vista, a defesa do teu ponto de vista faz com que pessoas sejam mortas, então não é ponto de vista é ponto de vida. A vida das pessoas depende desta tua mudança de ponto de vista. A tua vai continuar, a tua vida só vai se tornar mais inclusiva, agora a vida dessas pessoas vai mudar completamente, inclusive elas vão poder ter suas vidas. Então é ponto de vida, não é ponto de vista.

JN: E nesse sentido, em que medida, não há como se sobrepor a essas vidas, tendo outras vidas como ponto de vista.

 IS: Sim, justamente, você tem que recuar nos seus privilégios. As pessoas têm que recuar e reconhecer os privilégios que elas têm nessa sociedade, reconhecer que existem pessoas que não acessam os espaços, que não podem viver as vidas que elas queriam justamente pela questão dos privilégios das pessoas que não reconhecem que existe toda uma opressão dos outros que faz com que os privilégios se mantenham. É o caso de reconhecer os privilégios e recuar para que outras pessoas também possam avançar, passa por um reconhecimento de privilégios.

 JN: Indianara, os temas que eu tinha pensado para essa conversa, acho que já cobrimos. Você quer falar mais alguma coisa que eu não tenha pensado?

IS: Não, acho que é isso… Tô com fome e quero comer agora. Ah, não, sim! Mais uma coisa! Eu acho que além do reconhecimento dos privilégios é importante que a gente largue essa culpa. Essa culpa cristã, branca, cis, hétero, normativa. Ninguém tem culpa. É como eu falo, os negros não têm culpa de terem nascido negros, os brancos não têm culpa de terem nascido brancos, héteros não tem culpa de terem nascido e terem sua orientação sexual definida e registrada, assim como gays, lésbicas e bissexuais não tem culpa de terem nascido gays, lésbicas e bissexuais, e de suas orientações sexuais serem criminalizadas, e terem que fazer uma luta para terem seus direitos reconhecidos. Assim como as pessoas cisgênero não tem culpa de terem nascido cisgêneras assim como as transvestigêneres não tem culpa de terem nascido transvestigêneres. As pessoas intersexo não tem culpa de terem nascido intersexo, as mulheres não tem culpa de terem nascido designadas como mulheres nem os homens tem culpa de terem nascido designados como homens… O que nós temos que reconhecer são nossos privilégios, então que os homens reconheçam isso para que a luta das mulheres avance, que os brancos reconheçam isso para que a luta dos negros avance, que as pessoas cis-hetero reconheçam seus privilégios sobre pessoas gays, lésbicas e bissexuais e recuem para que essas pessoas possam avançar com suas lutas e suas pautas, que as pessoas cisgênero reconheçam seus privilégios sobre transvestigêneres, e que recuem para que as pautas transvestigêneres avancem, que nós, pessoas transvestigêneres, possamos reconhecer nossos privilégios sobre pessoas intersexo, e que recuemos para que pessoas intersexo possam avançar com suas pautas. Que nós, seres humanos, reconheçamos nosso privilégio sobre os outros animais, o quanto nós sacrificamos, o quanto mal nós fazemos aos outros animais – porque nós também somos animais, pertencemos ao mundo animal, então eles também são nossos irmãos, e que a gente recue, nos tornando veganos; veganos inclusivos para que a luta dos animais que sofrem e que também tem direito a vida possam avançar e que assim a gente possa ter um dia uma sociedade realmente justa e igualitária. Acho que é isso, é reconhecer privilégios, recuar e trazer o outro pra frente.

Fonte:  Revista Latinoamericana do Colégio Internacional de Filosofia n. 3